REDOL, Alves

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ANTÓNIO ALVES REDOL

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DADOS BIOGRÁFICOS

Alves Redol
Alves Redol

António Alves Redol nasce em Vila Franca de Xira a 29 de Dezembro de 1911. Nasce no seio de uma família que apesar de modesta lhe permitiu uma infância de pequeno burguês, sendo filho de um comerciante. É na loja do pai que trabalharia esporadicamente desde novo. Frequenta o Curso Comercial, que concluiu em 1927 e no ano seguinte parte para Angola, onde fica durante três anos. Em 1936, volta a Portugal, junta-se aos opositores do regime ditatorial do Estado Novo, aderindo primeiro ao MUD – Movimento de Unidade Democrática e posteriormente filiando-se no Partido Comunista. Inicia a sua actividade literária com a colaboração no jornal O Diabo, escrevendo crónicas e contos ribatejanos. Esta ligação à sua região estaria patente em muitas das suas obras, retratando o viver das gentes, a lavoura, as duras condições de vida do povo. É esta abordagem que o vai destacar como um dos maiores expoentes do neo-realismo português. O seu primeiro livro, Glória, uma aldeia no Ribatejo, surge em 1938 e é um estudo etnográfico, realizado como observador participante. Na sequência desta publicação e decorrente do gosto pela etnografia, surge-lhe o primeiro romance, Gaibéus, que é publicado em 1940. Realizou uma pesquisa profunda para urdir o seu romance e para isso decide residir no campo, assistindo in loco à vida dos camponeses, à ceifa do trigo, às amarguras da sua vida. O romance Gaibéus é fiel à corrente literária neo-realista, sendo descrito pelo autor nestes termos: "não pretende ficar na literatura como obra de arte. Quer ser, antes de tudo, um documentário humano fixado no Ribatejo. Depois disso será o que os outros entenderem" Sobre o neo-realismo pronuncia-se na Gazeta Musical e de Todas as Artes (nº118, Janeiro 1961): -“(…) pois o neo-realismo (…) nunca será a expressão do real imediato, como o naturalismo e o populismo, mas expressão do essencial, tomando a realidade nas contradições mais vivas ou típicas do drama português (…) a uma literatura de desacordos insolúveis há que opor uma outra, capaz de compreender o homem na complexidade das alienações e das superações. Essa era e é ainda, em minha opinião, o principal objectivo do neo-realismo, movimento sempre atento às transformações do mundo do homem, às interacções que entre ambos se estabelecem, como também aos fenómenos secundários e às mediações que constituem a teia do comportamento humano na vida social e na vida individualizada (…).”

Redol fala-nos do início do seu percurso literário e das fontes de inspiração numa entrevista à Gazeta Musical e de Todas as Artes (nº118, Janeiro 1961): “Comecei a escrever aos doze anos num dos jornais manuscritos do Colégio (….). Aos 14 anos iniciei a colaboração no semanário da minha terra. (…) nunca mais deixei de publicar em jornais e revistas, lendo sempre, apaixonadamente, tudo o que me caía nas mãos. Lembro-me que o Forjaz de Sampaio me tornou ácido durante um tempo e que o inconformismo aparente de António Ferro me buliu também. (…) Comovi-me com Camilo, deliciei-me com o Eça por causa dos burgueses. (…) Exultei com Almada Negreiros e amei José Tagarro; sentíamos todos uma aversão sadia por Dantas e Carlos Reis. Pascoaes e Aquilino assustaram-me com a sua força e António Patrício acalmou-me. (…) Em 1928 fui obrigado a partir para África. (…) Vivi em Luanda durante 3 anos e aí comi, algumas vezes, o tal pão que o diabo amassou. (…) Até então nunca espreitara a vida por lentes tão poderosas e lúcidas, embora soubesse, na minha vivência com avós e tios, ferreiros, ferradores e camponeses, os amargos de boca que a pobreza dá. Convivia muito com gaibéus e carmelos que vinham aviar-se à loja de meu pai, onde fui marçano.”


Alves Redol foi um admirador confesso de Eça de Queirós a quem gabava o estilo e a estética. Redol defende a arte como utilitária, “a arte é um reflexo da vida social”, serve para espelhar a sociedade. Das suas motivações para a escrita dá conta noutra entrevista à Flama (nº 1060, Junho 1969): -“(…) Desejei ser médico. (…) A Vila Franca (iam) Jornalistas-escritores (…) eu admirava-os. Contar aos outros o que acontecia (…) descrições da natureza das pessoas, dos acontecimentos, dos estados de alma, desenvolvimento do espírito de observação, ler e estudar os outros (…). Deixar de escrever, propriamente dito não é muito possível. É como respirar, sabe (…)” Num outro depoimento para a revista Vértice (nº 258, Março 1965), Redol apresenta alguns trechos de uma vida difícil: “Aprendi a vender mercearias (…). Estive internado num colégio de Lisboa, ali para a Junqueira (…). Ao sair do colégio de Lisboa, trabalhei no escritório do meu pai durante alguns meses, (…). (Parti) para Angola. Tinha dezasseis anos. Aí fiz durante seis meses o curso de desempregado e de mendigo de trabalho. (…Arranjaram-me) um lugar de assalariado nos serviços da fazenda – funcionário público, (…) transitei para uma organização que vendia camiões e automóveis, pneus, óleos e (… encarregaram-me) também da publicidade nos jornais e (…) aos dezoitos anos ofereciam-me a gerência de uma filial em Nova Lisboa, que fui obrigado a recusar por falta de idade. (…) Aí ensinei estenografia durante três meses. (… Regi) um curso para rapazes vadios da minha terra em que leccionei português e noções gerais num sindicato operário, onde pouco ensinei e muito aprendi. Andava pelos vinte e um anos. (…) Ainda em África deu a malária comigo.” Redol polvilhou as suas obras com a descrição dos trabalhadores, apresentando algumas profissões que já foram obliteradas pela marcha inexorável do progresso, como os ceifeiros e mondinos do Alentejo, os fangueiros e os pescadores do Ribatejo, os barqueiros e vinhateiros da região duriense, os pescadores da Nazaré, os avieiros, os ganhões, os marçanos, os operários, os empregados de escritório citadinos... Ler as suas obras é percorrer a manta de retalhos social em que vivia Portugal nos tempos da ditadura salazarista, ver o país pelos olhos dos pobres, perceber o desespero, a fome, a tensão, que a maior parte dos portugueses sentia. Em muitas das suas obras denuncia a injustiça social, critica os poderosos do seu tempo, pinta em palavras um retrato da época e o regime não lhe perdoa esta crueza e realismo com que descreve o povo português, bem como a sua filiação partidária no PCP. Foi preso, torturado pela PIDE e foi o único autor português a ter as suas obras sujeitas a uma censura prévia. Esta perseguição política coagiu-lhe a sua actividade literária e dificultou-lhe viver apenas da escrita, apesar de ter deixado um espólio invejável. Nos seus derradeiros anos ainda aparecem algumas obras de literatura infantil, idealizadas para serem usadas em contexto escolar, sendo inclusive testadas em crianças, recorrendo a professoras primárias e aos seus alunos, evidenciando as suas preocupações pedagógicas. Alves Redol falece a 29 de Novembro de 1969, em Lisboa, sem ter visto cair o Estado Novo que sempre combateu.

LITERATURA INFANTIL

  • A Vida Mágica da Sementinha - 1956 -

  • Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos - 1962 -

  • A Flor Vai Ver o Mar - 1968

  • A Flor Vai Pescar Num Bote - 1968

  • Uma Flor Chamada Maria - 1969 -

  • Maria Flor Abre o Livro das Surpresas - 1970

BIBLIOGRAFIA COMPLETA

Romances

  • 1939 Gaibéus
  • 1941 Marés
  • 1942 Avieiros
  • 1943 Fanga
  • 1945 Anúncio
  • 1946 Porto Manso
  • 1949 Horizonte Cerrado
  • 1951 (?) Os Homens e as Sombras
  • 1953 (?) Vindima de Sangue
  • 1954 Olhos de Água
  • 1958 A Barca dos Sete Lemes
  • 1959 Uma Fenda na Muralha
  • 1960 Cavalo Espantado
  • 1961 Barranco de Cegos
  • 1966 O Muro Branco
  • 1972 Os Reinegros

Teatro

  • 1948 Forja
  • 1966 Teatro I - Forja e Maria Emília
  • 1967 Teatro II - O Destino Morreu de Repente
  • 1972 Teatro III - Fronteira Fechada

Contos

  • 1940 Nasci com Passaporte de Turista
  • 1944 Espólio
  • 1946 Comboio das Seis
  • 1959 Noite Esquecida
  • 1963 Histórias Afluentes
  • 1968 Três Contos de Dentes

Literatura Infantil

  • 1956 A Vida Mágica da Sementinha
  • 1962 Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos
  • 1968 A Flor Vai Ver o Mar
  • 1968 A Flor Vai Pescar Num Bote
  • 1969 Uma Flor Chamada Maria
  • 1970 Maria Flor Abre o Livro das Surpresas

Estudos

  • 1938 Glória - Uma Aldeia do Ribatejo
  • Ribatejo (Em Portugal Maravilhoso)
  • 1947 (?) A França - Da Resistência à Renascença
  • 1950 Cancioneiro do Ribatejo
  • 1959 (?) Romanceiro Geral do Povo Português

Conferências

  • 1946 LeRomanduTage (Edição da UnionFrançaiseUniversitaire - Paris)

nota - as datas mencionadas referem-se às 1as edições


BIBLIOGRAFIA PASSIVA (Monografias)

  • J.Almeida Pavão - "Alves Redol e o Neo-Realismo" - Separata da revista "Ocidente" (1959)
  • Vários Autores - "Vértice" - Número especial de Homenagem a ALves Redol - nº 322-323 (Nov-Dez 1970)
  • Vários Autores - "Charrua em Campo de Pedras" - Seara Nova (1975)
  • Alexandre Pinheiro Torres - "Os Romances de Alves Redol" - Moraes Editores (1979)
  • Álvaro Salema - "Alves Redol: A Obra e o Homem" - Arcádia (1980)
  • Garcez da Silva - "Alves Redol e o Grupo Neo-Realista de Vila Franca" - Caminho (1990)
  • Ana Paula Ferreira - "Alves Redol e o Neo-Realismo Português" - Caminho (1992)
  • Garcez da Silva - "A Experiência Africana de Alves Redol" - Caminho (1993)
  • Maria Graciete Besse - "Alves Redol - O Espaço e o Discurso" - Ulmeiro (1997)
  • Vários Autores - "Alves Redol - Testemunhos dos Seus Contemporâneos" - Caminho (2001)

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FONTES CONSULTADAS

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